Enquanto o farol não abre
“Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso, faço hora, vou na valsa
A vida é tão rara”
(Lenine)
Um dos pontos altos do meu dia, e que me deixa feliz da vida, são os dois minutos que o ônibus fica parado no farol em frente ao parque. São os segundos do meu dia, em que admiro as árvores e a grama verdinha, os passarinhos, o chafariz, as pessoas felizes passeando com seus dogs e seus filhos, o lago, o sol.
Nesses momentos esqueço as minhas obrigações e problemas, dou uma pausa na minha rotina maçante, nessa loucura de cidade grande e de vida adulta. Consigo esquecer por um breve instante que virei homem, que agora tenho minhas infindáveis responsabilidades, e um grande desafio pela frente.
Porque arrumo tempo pra reuniões de última hora, para um almoço com o “Zé” importante, pro fornecedor que tem um preço melhor, pro curso de sábado que ocupa toda a minha manhã, para o trabalho de faculdade que é para o dia seguinte e para todo o resto mascarado com o selo de “urgente” que me enfiam goela abaixo.
Agora, eu te pergunto caro leitor: há quanto tempo você não senta no sofá com sua família para assistir um programa idiota de domingo? Há quanto tempo não leva sua mãe pra almoçar? Quanto tempo faz que você não vai ao cinema? Não compra uma casquinha do MC? Não olha nos olhos do seu pai? Por quê não vai mais ao parque com seu cachorro? Não separa um sábado para cozinhar pra sua esposa? São detalhes que passam despercebidos, mas são os que realmente valem a pena na vida.
Sei lá…essa rotina de gente grande acaba comigo. Quero acordar cedinho e ir a essas feiras que tem aos montes em São Paulo. Quero passear com a minha mãe, levar minha avó para almoçar e não engolir, como sempre faço, a comida que ela me faz com tanto carinho. Quero comprar coisas inúteis, jogar conversa fora, reunir os amigos, sorrir mais, dar boas gargalhadas e passar os meus dias com menos mau-humor-de-noites-mal-dormidas.
Deve ser por isso que estou dando cada vez mais valor as manhãs ensolaradas, ao céu azul, ao canto dos passarinhos, ao vento no rosto. É que além de fazerem me sentir vivo, deixam o parque mais bonito.
São apenas dois minutinhos que me ajudam a esquecer que dói aqui dentro – e que precisa urgentemente parar de doer -, e que tudo isso me deixa cansado às vezes.
Sem problemas, sem tempo, sem estatísticas, sem cobranças, só a promessa de dias que podem ser mais bonitos.
Podem, e vão ser.
De preferência, não só enquanto eu espero o farol abrir.

D.C. - doterceiroandar
